Em 1653, um escritor escocês chamado Thomas Urquhart escondeu uma mensagem secreta dentro de um livro. Dois versos codificados, 64 números misteriosos, e uma promessa de que quem decifrasse encontraria “os desejos do próprio coração e a mente do Autor”. Gerações de criptógrafos tentaram. Ninguém conseguiu. O código entrou para a lista dos 50 criptogramas mais famosos sem solução do mundo.
Aí veio uma IA e resolveu tudo em 44 minutos.
O Claude Fable 5.1, modelo da Anthropic lançado em setembro de 2026, decifrou o chamado Cyphral Distich sem nenhuma intervenção humana. Gastou 176 mil tokens, rodou sozinho, e revelou uma mensagem que estava enterrada há 370 anos: uma oração pela supremacia do Rei Charles II.
Mas calma. A história não termina aí. No dia seguinte à publicação, um grupo de pesquisadores soltou uma réplica técnica destruindo ponto por ponto a suposta solução. E o debate que surgiu é mais interessante do que a resposta em si.
Quem foi Thomas Urquhart (e por que ele escondia mensagens)
Sir Thomas Urquhart de Cromarty era um personagem improvável: aristocrata escocês, matemático amador, inventor de uma linguagem universal, tradutor de Rabelais e monarquista fervoroso. Viveu numa época em que apoiar o rei errado podia custar a cabeça. Literalmente.
Na primeira metade do século XVII, a Grã-Bretanha estava em guerra civil. De um lado, os apoiadores do Parlamento liderados por Oliver Cromwell. Do outro, os realistas fiéis à coroa. Urquhart era um royalista convicto. Lutou na Batalha de Worcester em 1651, foi capturado, preso, e teve suas terras confiscadas.
Durante o cárcere, escreveu furiosamente. Em 1652 publicou The Jewel e em 1653, Logopandecteision, dois tratados densos, eruditos e excêntricos. Ambos terminam com sequências numéricas enigmáticas que ninguém, na época, explicou. O Logopandecteision traz duas linhas de 32 números cada: o “Cyphral Distich”. O The Jewel traz uma versão maior, com 285 números: o “Cyphral Octastich”.
Esses números ficaram dormindo por mais de dois séculos. Em 1899, o biógrafo John Willcock os trouxe de volta à tona em Notes and Queries, uma revista acadêmica britânica. Desde então, o Cyphral Distich virou um desafio clássico de criptografia histórica. Klaus Schmeh, provavelmente o maior historiador de códigos não resolvidos do planeta, colocou o Distich na posição 28 da sua lista dos 50 criptogramas mais famosos do mundo.
De 1899 a 2026, ninguém conseguiu quebrar.
A estrutura do código: 64 números, 32 seções, zero pistas externas
Antes de entender a solução, vale ver o problema. O Cyphral Distich consiste em duas linhas, cada uma com 32 números inteiros relativamente pequenos. O livro Logopandecteision contém exatamente 32 seções que Urquhart chamou de “Proquiritations”, cada uma sendo um “desejo” ou “petição” do autor.
O poema que acompanha o Distich diz que o leitor “encontrará os desejos do próprio coração e a mente do Autor”. Urquhart também enfatiza repetidamente o número 32 ao longo do texto, sem razão aparente.
Por séculos, criptógrafos tentaram abordagens clássicas: substituição monoalfabética, cifras polialfabéticas, grades numéricas, livros-chave externos. Ninguém considerou que a chave era o próprio texto. A resposta estava escondida à vista de todos.
Como o Fable 5.1 resolveu (segundo a Vals AI)
A empresa Vals AI, que desenvolve benchmarks para modelos de linguagem, publicou no dia 31 de agosto de 2026 um post detalhando como o Claude Fable 5.1 encontrou a solução. O processo foi direto e, em retrospecto, quase óbvio.
O Fable recebeu o texto completo do Logopandecteision junto com as duas linhas de números. Nenhuma dica, nenhum contexto adicional. O modelo identificou sozinho dois fatos cruciais:
- O livro contém exatamente 32 Proquiritations
- O Distich contém exatamente 32 números por linha
A partir dessa coincidência (que claramente não é coincidência), o mecanismo de decodificação é elegante na simplicidade:
- Para cada posição i na linha do código (de 1 a 32), vá até a i-ésima Proquiritation
- Use o número do código como índice de palavra dentro daquela seção
- Pegue a primeira letra dessa palavra
- Junte todas as letras na ordem
O resultado? Duas linhas que formam um dístico rimado em inglês:
“O GOD UPHOLD KING CHARLS THE SECOND AND”
“MAKE HIM THE SUPREME RULER OF THIS LAND”
Uma oração pedindo a Deus que sustente o Rei Charles II e o faça governante supremo da terra. Cada linha tem exatamente 32 letras. Formam um par rimado (AND/LAND), consistente com a promessa de “distich” (dístico, dois versos).
Por que isso faz sentido historicamente
A mensagem é perfeitamente coerente com quem Urquhart era e com o momento em que escreveu.
Em 1653, Charles II estava exilado na Europa. Cromwell governava a Inglaterra como Lord Protector. Escrever abertamente uma oração pela restauração do rei era pedir para ser executado. Esconder essa oração num código dentro de um livro acadêmico era genial: a mensagem existia para quem soubesse procurar, mas era invisível para censores.
A forma de dístico rimado também é significativa. Urquhart era um poliglota obcecado por linguagem e estrutura. Criar um código que, quando decifrado, revela dois versos metricamente perfeitos em inglês é exatamente o tipo de pirueta intelectual que ele adorava.
E o próprio livro contém as pistas: a ênfase no número 32, o poema prometendo revelar “a mente do Autor”, as Proquiritations numeradas. Urquhart queria que alguém decifrasse. Só que “alguém” demorou 370 anos pra aparecer, e não era humano.
44 minutos, 176K tokens, zero humanos
O que torna esse feito notável não é a complexidade da criptografia. Em retrospecto, o método é simples. O notável é que ninguém pensou nisso em quase quatro séculos.
Criptógrafos profissionais tentaram abordagens sofisticadas: frequência de letras, análises estatísticas, comparações com cifras contemporâneas. A ironia é que a solução era mais simples que qualquer uma dessas técnicas.
O Fable 5.1 não usou nenhum algoritmo de criptoanálise avançado. Ele leu o texto, notou as estruturas numéricas, e testou hipóteses sistematicamente. A Vals AI descreveu o processo como “tentativa e erro sistemático com persistência computacional”. Em 44 minutos e 176 mil tokens, a IA explorou possibilidades que um humano levaria semanas para testar manualmente.
A vantagem da IA aqui não foi inteligência superior. Foi paciência infinita. Um criptógrafo humano descarta caminhos promissores por cansaço, viés cognitivo ou intuição equivocada. A IA testa cada hipótese com a mesma energia, sem atalhos mentais, sem desistir depois de três horas de tentativas frustradas.
O Octastich: a versão grande (com buracos)
Depois de resolver o Distich, o Fable 5.1 atacou o Cyphral Octastich de The Jewel (1652). São 285 números que, pelo mesmo método, produzem oito linhas de texto.
O modelo decodificou a maior parte, mas nove letras ficaram ambíguas. Em alguns pontos, a palavra na posição indicada pelo número não começa com a letra esperada. Uma das ambiguidades envolve a expressão latina “hinc inde”: conta como uma palavra ou duas? Isso muda o índice de todas as palavras seguintes na seção.
A Vals AI reconhece que a verificação completa exige acesso físico a edições originais de 1652. Transcrições digitais podem ter variações de grafia, paginação e até ordem de palavras que invalidam o mapeamento posicional. É um código frágil por natureza: mude uma vírgula, e o índice sai do lugar.
E no dia seguinte, pesquisadores destruíram a solução
No dia 1 de setembro de 2026, menos de 24 horas depois do anúncio, um grupo de pesquisadores publicou no GitHub (sob o nome Reticuli) uma réplica técnica que ataca a solução em três frentes.
O código nem existe no livro original
Segundo os pesquisadores, que consultaram cópias físicas do Logopandecteision na British Library, o livro original de 1653 não contém nenhuma sequência numérica no final. O livro termina com um ornamento tipográfico, um epígrafo, a palavra “FINIS” e uma errata. Zero dígitos.
Os números atribuídos a Urquhart aparecem pela primeira vez na biografia de John Willcock, de 1899. Ou seja: o Cyphral Distich pode ser uma adição de Willcock, não algo que Urquhart colocou no livro.
Se isso for verdade, o Fable 5.1 não decifrou um código de 370 anos. Ele encontrou um padrão em algo que pode nem ser um código.
Dez posições são matematicamente impossíveis
Os pesquisadores verificaram o método proposto e afirmam que, em pelo menos dez das 64 posições, a palavra no índice indicado não começa com a letra necessária para formar a frase completa. Se você aplicar o método com rigor, usando as transcrições disponíveis, ele não produz a mensagem inteira. Existem lacunas que o Fable aparentemente preencheu por inferência, não por decodificação.
Transcrições digitais divergem do original
As transcrições digitais disponíveis publicamente (que o Fable usou como base) diferem entre si e diferem das edições originais. Quando cada posição de palavra importa, qualquer divergência de uma vírgula, uma palavra composta ou uma formatação diferente invalida o resultado inteiro.
O que isso significa pra IA (de verdade)
Essa história, independentemente de quem tenha razão, expõe um dilema central dos modelos de linguagem como ferramentas de pesquisa.
Se o Fable acertou, temos o primeiro caso documentado de uma IA resolvendo um criptograma histórico real. Algo que desafiou especialistas humanos por séculos caiu em 44 minutos de processamento. Isso abre a porta para atacar os outros 49 códigos da lista de Schmeh com o mesmo método: jogue o texto inteiro para um LLM e deixe ele explorar.
Se o Fable errou, temos algo igualmente revelador: a IA encontrou uma narrativa convincente em dados que podem não conter narrativa nenhuma. Ela produziu uma frase coerente, historicamente plausível, metricamente consistente, e que “faz sentido”. Mas sentido não é prova. Coerência não é verdade.
Esse é o risco fundamental dos LLMs como ferramentas de pesquisa: eles são otimizados para produzir texto coerente. Quando você joga números e contexto histórico para um modelo treinado para encontrar padrões, ele vai encontrar padrões. A pergunta é se esses padrões estão nos dados ou na cabeça do modelo.
| Cenário | Implicação para IA |
|---|---|
| Fable acertou | Criptoanálise por LLM é viável para códigos históricos |
| Fable errou | LLMs fabricam soluções convincentes para problemas sem solução |
| Verdade no meio | O método funciona parcialmente e precisa de verificação humana |
A lista de Schmeh ainda tem 49 códigos
Se você ficou curioso: o Cyphral Distich era o número 28. Ainda existem criptogramas mais famosos e mais difíceis esperando. O Manuscrito de Voynich (número 1 da lista) já derrotou gerações de criptógrafos, linguistas e, mais recentemente, IAs. Os cifrados do Zodiac Killer, os códigos de Dorabella de Edward Elgar, a cifra Beale.
A pergunta agora é: quantos desses podem ser atacados da mesma forma? Quantos têm a chave escondida no próprio texto, esperando alguém (ou algo) paciente o bastante para testar todas as combinações?
O Fable 5.1 mostrou que IAs são excelentes em encontrar padrões. O problema, como os pesquisadores do Reticuli lembram, é que IAs também são excelentes em encontrar padrões que não existem.
E Thomas Urquhart? Provavelmente está rindo de todos nós. Passou a vida construindo quebra-cabeças que ninguém entendia. Por que pararia agora, 370 anos depois?
Fonte de inspiração: Claude Fable 5.1 Solves the Cyphral Distich (Vals AI, 2026)













