Flipper One: O Gadget Hacker Virou um PC Linux de Bolso com 8GB de RAM
Quem comprou um Flipper Zero nos últimos anos provavelmente lembra da sensação: um bichinho pixelado na tela, um joystick minúsculo, e a promessa de clonar cartões de acesso, controles de portão e sinais de rádio. Era divertido, era polêmico — governos como o do Canadá chegaram a banir a venda do dispositivo. Mas no fundo, o Zero sempre foi um brinquedo caro para quem queria brincar de hacker no fim de semana.
O Flipper One é outra coisa.
A equipe da Flipper Devices acabou de revelar o sucessor do Zero, e o salto é tão grande que chamar de “Flipper Zero 2” seria desonesto. Estamos falando de um computador Linux completo que cabe no bolso, com processador octa-core de 2.2 GHz, 8 GB de RAM LPDDR5, NPU de 6 TOPS, duas portas Ethernet Gigabit, Wi-Fi 6E, slot M.2, HDMI 2.1 com saída 4K a 120 Hz, e uma bateria de 7.000 mAh.
Sim, você leu certo. Um dispositivo que cabe na mão e tem mais portas que muitos notebooks.
De Layer 0 para Layer 1
O Flipper Zero operava no que a equipe chama de “Layer 0” — protocolos offline como NFC, RFID, Sub-GHz e infravermelho. Útil para pentesters, mas limitado a interações físicas de curto alcance.
O Flipper One opera na “Layer 1”: tudo que envolve redes IP. Wi-Fi, Ethernet, 5G (via módulo M.2), e até comunicação por satélite. É a diferença entre abrir um portão de garagem e fazer um man-in-the-middle numa rede corporativa.
E aqui vai o detalhe que poucos perceberam: o One não tem Sub-GHz, NFC, RFID nem infravermelho. Nada. A Flipper Devices removeu tudo isso de propósito.
Por quê? Regulação. O Flipper Zero foi banido no Canadá, apreendido em aeroportos, e gerou dores de cabeça legais em vários países. Ao remover as capacidades de rádio que causaram a controvérsia, o One evita essa armadilha — e foca no que realmente interessa para profissionais de segurança.
As Specs que Fazem Engenheiro Chorar
Vamos ao que interessa. Aqui está a ficha técnica completa:
| Componente | Especificação | |
|---|---|---|
| — | — | |
| CPU | Rockchip RK3576 — 4× Cortex-A72 + 4× Cortex-A53, até 2.2 GHz | |
| GPU | Mali G52 MC3 (OpenGL ES, Vulkan 1.2) | |
| NPU | 6 TOPS @INT8 (suporta INT4, FP16, BF16, TF32) | |
| MCU | Raspberry Pi RP2350B — dual Cortex-M33 + dual RISC-V @ 150 MHz | |
| RAM | 8 GB LPDDR5 | |
| Armazenamento | 64 GB UFS 2.2 + microSD (UHS-I) | |
| Tela | 256 × 144 px, monocromática, 64 níveis de cinza | |
| Wi-Fi | 6E (2.4 / 5 / 6 GHz), 2×2 MIMO (MediaTek MT7921AUN) | |
| Bluetooth | 5.2 | |
| Ethernet | 2× Gigabit RJ45 (Realtek RTL8211F) | |
| USB-C 1 | USB 3.1, DisplayPort Alt Mode, Power Delivery | |
| USB-C 2 | USB 3.1, host-only, power output | |
| USB-A | USB 3.1, 5 Gbps | |
| HDMI | 2.1 full-size, 4K @ 120 Hz, CEC | |
| M.2 | Key-B (PCIe 2.1, USB 3.1, SATA3, UART, I2C) | |
| SIM | Nano SIM (4FF) | |
| Áudio | 3.5 mm TRRS (stereo + mic), codec NAU8822 | |
| Bateria | 7.000 mAh / 24.000 mWh | |
| Dimensões | 155 × 67 × 40 mm | |
| Material | PC/ABS + Gorilla Glass + alumínio anodizado |
Eu olho para essa tabela e vejo um mini-servidor. Duas portas Ethernet Gigabit num dispositivo portátil significam que você pode, literalmente, colocar o Flipper One entre seu laptop e a rede para analisar tráfego em tempo real. Ou configurá-lo como roteador VPN de campo em três minutos.
O Cérebro Duplo
Uma das decisões mais inteligentes do projeto é a arquitetura de co-processador. O Flipper One tem dois processadores independentes:
- CPU principal (RK3576): roda Linux completo — Debian, com acesso a todo o ecossistema de ferramentas
- MCU (RP2350): controla a tela, os botões, a energia, e funciona mesmo com a CPU desligada
Na prática, isso significa que o MCU pode gerenciar tarefas simples (como mostrar status de bateria, receber notificações, ou rodar scripts leves) enquanto a CPU principal dorme. É o tipo de otimização que você encontra em smartwatches, mas que ninguém implementa em single-board computers.
O RP2350 é particularmente interessante porque oferece tanto cores ARM (Cortex-M33) quanto RISC-V (Hazard3) a 150 MHz. Você pode literalmente escolher a arquitetura de instrução que prefere para o firmware do microcontrolador.
NPU: IA Local no Bolso
Os 6 TOPS da NPU integrada podem parecer modestos comparados a uma GPU NVIDIA, mas no contexto de um dispositivo de bolso, abrem possibilidades reais:
- Análise de tráfego de rede com ML — detecção de anomalias em tempo real
- Reconhecimento de padrões em protocolos — identificar dispositivos IoT automaticamente
- LLMs pequenos locais — rodar modelos especializados para classificação e análise
A NPU suporta INT4, INT8, INT16, FP16, BF16 e TF32. Modelos quantizados de 1-4 bits rodam confortavelmente. Dá para imaginar um agente local que analisa os resultados de um scan e sugere próximos passos — tudo offline, sem mandar nada para a nuvem.
O Slot M.2 Muda Tudo
Se eu tivesse que escolher uma única feature do Flipper One para destacar, seria o slot M.2 Key-B.
Com ele, você pode plugar:
- Modem 5G/LTE — conectividade celular para testes em campo
- Placa SDR — rádio definido por software para análise de espectro
- Modem satelital NTN — comunicação sem cobertura terrestre
- SSD NVMe — armazenamento extra para capturas de pacotes massivas
- Qualquer módulo M.2 compatível — o ecossistema é enorme
O slot suporta interfaces PCIe 2.1, USB 3.1, SATA3 e serial. E já tem passthrough para o nano SIM card embutido, então um modem celular funciona plug-and-play.
Isso transforma o Flipper One de um device fixo em uma plataforma modular. Dependendo do módulo, ele pode ser um analisador de rede, um ponto de acesso, um SDR portátil, ou um thin client com armazenamento massivo.
Flipper OS: Profiles que Mudam Tudo
Quem já usou Kali Linux num Raspberry Pi conhece a dor: você precisa de um SD card diferente para cada configuração, cada projeto, cada cliente. O Flipper OS propõe uma solução elegante.
O conceito é simples: profiles. Cada profile é um snapshot completo do sistema — pacotes instalados, configurações de rede, ferramentas, scripts. Você alterna entre profiles como quem troca de canal:
- Profile “Pentest”: Nmap, Wireshark, Burp Suite, todas as wordlists
- Profile “IoT Lab”: Mosquitto, Zigbee tools, firmware analysis
- Profile “Desktop”: KDE Plasma ou Sway, browser, terminal
- Profile “Router”: iptables, DNS, DHCP, VPN gateway
Sem reformatar. Sem trocar microSD. Sem reinstalar nada.
O Flipper OS roda sobre Debian e adiciona essa camada de gerenciamento de perfis. A equipe ainda está definindo a arquitetura final — estão entre usar containers, filesystem overlays, ou snapshots de btrfs — mas o conceito já está validado.
FlipCTL: Terminal UI para Tela Pequena
Ninguém quer digitar nmap -sS -p- 192.168.1.0/24 numa tela de 256 × 144 pixels. O FlipCTL resolve isso.
É um framework de UI que empacota ferramentas Linux em menus navegáveis por D-pad e botões. Pense nele como um wrapper visual para o terminal:
┌─ Network Scanner ──────────┐
│ │
│ Target: 192.168.1.0/24 │
│ Ports: Top 1000 │
│ Mode: [SYN Scan] │
│ │
│ [▶ Start] [⚙ Options] │
└─────────────────────────────┘
Cada ferramenta ganha uma interface menu-driven. Você seleciona opções com o D-pad, confirma com um botão, e vê os resultados formatados para a tela pequena. Sem precisar conectar teclado ou monitor externo.
O time planeja disponibilizar o FlipCTL como framework open source, então a comunidade pode criar interfaces para qualquer ferramenta. Imagina um Metasploit com interface de Game Boy.
“Precisamos da Sua Ajuda”
A parte mais incomum do anúncio é a transparência radical. Pavel Zhovner, fundador da Flipper Devices, publicou um post detalhado explicando que o projeto é “incrivelmente difícil, tanto financeiramente quanto tecnicamente” — e que eles estão abrindo tudo para a comunidade ajudar.
Não é papo de marketing. Eles literalmente publicaram:
- Task trackers internos
- Discussões de arquitetura em andamento
- Documentação inacabada
- Debates sobre decisões de design
Tudo no Developer Portal em docs.flipper.net/one. É o tipo de coisa que empresas normalmente escondem atrás de NDAs.
Os sub-projetos onde a comunidade pode contribuir:
- Hardware — design de PCB e antenas
- Mecânica — design industrial do enclosure
- Linux (CPU) — kernel, drivers, userspace
- Firmware MCU — firmware do RP2350
- Interface — UI/UX do FlipCTL e Flipper OS
- Documentação — manutenção do Developer Portal
- Testes — validação de hardware e subsistemas
O desafio mais crítico? Fazer o suporte ao RK3576 entrar no kernel mainline do Linux. A Flipper contratou a Collabora (uma das maiores contribuidoras do kernel) para fazer o upstream, mas ainda resta um blob binário no DDR trainer que não conseguiram eliminar.
“I’ve been thinking about the concept of a pocket Linux multi-tool for the last 10 years, but I always felt the available technology and components weren’t good enough.” — Pavel Zhovner, fundador da Flipper Devices
O Problema do ARM Linux
Quem trabalha com single-board computers sabe: o ecossistema ARM no Linux é um pesadelo. Cada fabricante de SoC (Rockchip, Allwinner, Amlogic, Broadcom) mantém seu próprio fork do kernel com patches proprietários, blobs binários e board support packages que nunca são upstreamed.
O resultado? Quando o fabricante para de dar suporte, seu hardware morre. Raspberry Pi é a exceção, não a regra.
A Flipper está tentando fazer diferente. O objetivo declarado é construir “o computador ARM mais aberto e melhor documentado” com:
- Suporte completo no kernel mainline (sem BSP proprietário)
- Zero blobs binários (exceto o DDR trainer, que ainda estão tentando resolver)
- Documentação pública de todas as decisões de hardware
- Design de PCB aberto
Se conseguirem, vai ser um marco para o ecossistema ARM. Se não conseguirem… bem, pelo menos tentaram ser transparentes sobre os obstáculos.
Casos de Uso na Vida Real
Vamos sair da teoria e pensar em cenários concretos:
Pentester em Campo
Você chega no cliente com o Flipper One no bolso. Conecta os dois cabos Ethernet — um no switch da rede, outro no seu laptop. Em segundos, está capturando todo o tráfego entre os segmentos. A NPU roda detecção de anomalias em tempo real enquanto você analisa manualmente no Wireshark via SSH.
Roteador VPN Portátil
Conectado ao Wi-Fi do hotel, o One cria uma VPN para todo o tráfego. As duas portas Ethernet servem para conectar dispositivos com fio — um NAS de viagem, talvez. O profile “Router” já tem tudo configurado. Liga e funciona.
Estação de Trabalho de Emergência
HDMI na TV do Airbnb, teclado Bluetooth, mouse. O profile “Desktop” carrega KDE Plasma com browser, terminal, VS Code. Você tem um desktop Linux completo alimentado por um dispositivo de 155 × 67 mm. A bateria de 7.000 mAh segura umas boas horas.
Lab IoT Portátil
O módulo M.2 com SDR analisa sinais Zigbee e Z-Wave de dispositivos smart home. O Wi-Fi 6E captura tráfego na banda de 6 GHz. A NPU classifica os dispositivos encontrados automaticamente. Tudo logado no UFS interno de 64 GB.
Preço e Disponibilidade
A Flipper Devices ainda não confirmou preço oficial, mas rumores apontam para algo entre US$ 300 e US$ 500. Considerando que o Flipper Zero custava US$ 169 e era basicamente um microcontrolador com rádio, o salto de preço é justificável — mas pode assustar quem esperava algo mais acessível.
O lançamento está previsto para o verão de 2026 (hemisfério norte), o que significa algo entre junho e setembro. A equipe mencionou que o preço alto da memória LPDDR5 é uma preocupação real, e dependendo das condições do mercado, o pricing pode mudar.
Não há pré-venda aberta ainda. A recomendação é acompanhar o Developer Portal e o blog oficial.
Flipper One vs. Flipper Zero vs. Raspberry Pi 5
| Feature | Flipper Zero | Flipper One | Raspberry Pi 5 | |
|---|---|---|---|---|
| — | — | — | — | |
| CPU | STM32 (1 core, 64 MHz) | RK3576 (8 cores, 2.2 GHz) | BCM2712 (4 cores, 2.4 GHz) | |
| RAM | 256 KB | 8 GB LPDDR5 | 4/8 GB LPDDR4X | |
| Armazenamento | microSD | 64 GB UFS + microSD | microSD | |
| Sub-GHz | Sim | Não | Não | |
| NFC/RFID | Sim | Não | Não | |
| Wi-Fi | Não (via dev board) | 6E tri-band | 5 dual-band | |
| Ethernet | Não | 2× Gigabit | 1× Gigabit | |
| USB-C | 1× (OTG) | 2× (USB 3.1) | 1× (Power) | |
| HDMI | Não | 1× (4K@120Hz) | 2× micro (4K@60Hz) | |
| M.2 | Não | Key-B | Via HAT+ | |
| NPU | Não | 6 TOPS | Não | |
| Bateria | 2.000 mAh | 7.000 mAh | Nenhuma | |
| Tela | 128×64 monocromática | 256×144 monocromática | Nenhuma | |
| Preço | ~US$ 169 | ~US$ 300-500 | ~US$ 60-80 |
O Raspberry Pi 5 ganha em custo-benefício puro, mas não é portátil. Não tem bateria, não tem tela, não tem case. Quando você adiciona tudo isso, o preço sobe e a praticidade cai.
O Flipper Zero é portátil e divertido, mas é um brinquedo comparado ao One em termos de capacidade computacional.
O Flipper One ocupa um nicho que ninguém mais atende: um computador Linux portátil, com bateria, tela, e conectividade de rede séria, num form factor de bolso.
O Elefante na Sala: Regulação
O Flipper Zero causou uma crise regulatória. O Canadá baniu o dispositivo. Agentes de alfândega apreendiam unidades em aeroportos. Políticos pediam proibição total de “ferramentas de hacking”.
A Flipper Devices aprendeu a lição. Ao remover Sub-GHz, NFC, RFID e infravermelho, o One é essencialmente um computador Linux com Wi-Fi — não diferente de um laptop ou tablet. Não há argumento regulatório fácil para bani-lo.
Mas isso cria outro problema: para quem usava o Zero como multitool de rádio, o One não é um substituto. É um complemento. Você provavelmente vai querer os dois.
O Que Falta Resolver
A equipe é transparente sobre os problemas em aberto:
- DDR trainer blob: o único blob binário que resta no sistema. Estão tentando eliminar, mas não há garantia
- DisplayPort Alt Mode via USB-C: “é um conjunto brutal de protocolos” com problemas de integridade de sinal
- Decodificação de vídeo por hardware: ainda não suportada no kernel mainline para o RK3576
- Ambiente desktop: não decidiram entre KDE Plasma, Sway, ou algo mais leve
- Arquitetura do Flipper OS: ainda em protótipo — containers vs. overlays vs. btrfs snapshots
São desafios reais, não obstáculos triviais. Mas o fato de estarem publicando isso abertamente, em vez de esconder atrás de uma FAQ genérica, é refrescante.
Quem deveria prestar atenção nisso
Se você trabalha com segurança ofensiva, o Flipper One pode ser a ferramenta de campo que você sempre quis. Se mexe com IoT, as opções de conectividade e expansão são absurdas. Se curte Linux embarcado, contribuir com o projeto é uma chance rara de influenciar o design de um hardware comercial com adoção real.
E se você é só curioso — acompanhe o Developer Portal. A transparência do processo de desenvolvimento vale a leitura por si só, independente de você comprar o dispositivo ou não.
O endereço é docs.flipper.net/one.
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Fonte de inspiração: Flipper One – we need your help e Flipper One Tech Specs













