O cara que criou o Terraform resolveu fazer um terminal. E ficou absurdo.
Se você usa Mac e ainda está no iTerm2, eu tenho uma notícia que talvez doa um pouco: o Ghostty 1.4 acabou de sair e ele processa texto 6x mais rápido, usa até 90% menos RAM e, de bônus, é o primeiro terminal além do Kitty a implementar 100% do protocolo gráfico Kitty. Com animações e tudo.
Mitchell Hashimoto, o mesmo cara por trás do Terraform, Vagrant e do HashiCorp inteiro, passou os últimos três anos construindo o Ghostty do zero. Escrito em Zig, renderizado via GPU com Metal no macOS e OpenGL no Linux, e agora oficialmente um projeto sem fins lucrativos. Sim, o terminal é grátis, open source e ninguém vai te cobrar assinatura pra usar split pane.
A versão 1.4 representa 7 meses de trabalho, 172 contribuidores e 2.889 commits. Vamos destrinchar o que mudou.
Performance que faz o iTerm2 chorar
Eu sei que “performance de terminal” soa como micro-otimização inútil, mas quando você roda logs pesados, builds intermináveis ou precisa processar output de scripts que cospem milhares de linhas por segundo, cada milissegundo importa.
O Ghostty 1.4 trouxe leitura concorrente de pty no macOS, o que aumentou o throughput de I/O em 25% a 55% dependendo do workload. O processamento de sequências VT ficou até 6x mais rápido para texto puro. Na prática, o output real do dia a dia ficou cerca de 24% mais rápido.
Pra colocar em números concretos, segundo benchmarks independentes:
| Terminal | 100K linhas | 1M linhas | Latência de input | RAM (idle, 1 tab) | |
|---|---|---|---|---|---|
| ———- | ———— | ———– | ——————- | ——————- | |
| Ghostty | 0.7s | 5.1s | ~2ms | 28 MB | |
| Kitty | 0.8s | 5.8s | ~3ms | 35 MB | |
| Alacritty | 0.9s | 6.2s | ~3ms | 22 MB | |
| iTerm2 | 2.4s | 22.1s | ~12ms | 85 MB |
O cold start também melhorou: 68ms contra 312ms do iTerm2. O terminal abre antes de você soltar o dedo do atalho.
E o resize com scrollback grande? Antes era doloroso. Agora está 6x mais rápido. Se você tem o hábito de redimensionar janelas o tempo todo (quem nunca?), vai sentir a diferença.
Compressão de scrollback: 90% menos memória
Essa é talvez a feature mais impactante pra quem roda terminais o dia inteiro. O Ghostty 1.4 implementou compressão de scrollback, que reduz o uso de memória física do histórico inativo em 70% a 90% para workloads típicos de texto.
Com isso, o limite padrão de scrollback subiu de 10 MB para 50 MB. Você pode manter muito mais histórico sem seu Mac ou notebook Linux engasgar. Na prática, terminais com scrollback pesado que antes consumiam centenas de MB agora ficam na casa dos dezenas.
O primeiro frame renderiza 27% mais rápido e o launch geral ficou 15% mais rápido. São ganhos cumulativos: cada detalhe ficou um pouquinho melhor, e somados, a experiência é notavelmente mais fluida.
Kitty Graphics Protocol: 100% completo (com animações)
O Ghostty é o primeiro terminal fora o próprio Kitty a implementar 100% da especificação do Kitty Graphics Protocol. A maioria dos terminais que tentam implementar esse protocolo para em “imagens básicas” e desiste do resto. O Ghostty foi até o fim.
O que isso significa na prática:
- Animações no terminal: frames transmitidos e reproduzidos com controle de playback. Você pode literalmente rodar GIFs animados dentro do terminal.
- Relative placements: posicionamento de imagens relativo ao texto, algo que nenhum outro terminal além do Kitty suportava.
- Parsing SIMD-accelerated: o parsing de imagens ficou ~16x mais rápido pra transferências grandes graças a instruções SIMD.
Se você usa ferramentas como timg, chafa, ou qualquer programa que renderiza imagens no terminal, o Ghostty agora é a opção mais completa e mais rápida fora o próprio Kitty.
Novo renderizador OpenGL no Linux
Usuários de Linux ganharam um renderizador completamente novo baseado em EGL. A mudança elimina a dependência do GtkGLArea, que era fonte de vários problemas de compatibilidade.
As melhorias são significativas:
- Triple buffering: reduz tearing durante scroll pesado
- Escala fracionária nítida: se seu monitor está em 125% ou 150% de scaling, o texto fica nítido de verdade, sem aquele blur irritante que outros terminais produzem
- Renderização na escala real: sem arredondamento, sem interpolação forçada
Pra quem usa Linux com monitores HiDPI ou configurações de scaling fracionário (que, convenhamos, ainda é um caos em 2026), isso é uma melhoria enorme. O texto fica tão nítido quanto no macOS.
ghostty +ssh: terminal remoto sem sofrimento
Todo mundo que já usou SSH sabe a dor de lidar com terminfo. Você conecta num servidor e as cores ficam erradas, o backspace não funciona direito, o tmux se perde. É frustrante.
O Ghostty 1.4 introduziu o comando ghostty +ssh, um wrapper do cliente SSH padrão que automaticamente:
- Instala o terminfo do Ghostty no servidor remoto na primeira conexão
- Faz cache do resultado por host/porta (não reinstala toda vez)
- Encaminha variáveis de ambiente relevantes
Parece simples, mas resolve um problema que existe há décadas. Chega de export TERM=xterm-256color como gambiarra.
Clipboard turbinado com protocolo Kitty
O sistema de clipboard também evoluiu bastante:
- OSC 5522: implementação do protocolo de clipboard do Kitty no macOS e GTK
- Múltiplos formatos: suporte a imagens, HTML e texto puro no clipboard
- Notificações de paste: programas podem selecionar o formato preferido quando você cola
- Limite configurável:
clipboard-write-limit-bytespra evitar que programas maliciosos encham seu clipboard
Essa última parte é importante do ponto de vista de segurança. O Ghostty não deixa qualquer programa escrever gigabytes no clipboard sem seu controle.
10 CVEs corrigidos: segurança levada a sério
Falando em segurança, o Ghostty 1.4 corrigiu 10 advisories de segurança. Algumas são especialmente relevantes:
- Carriage return em paste protection: programas maliciosos podiam bypassar a proteção de paste usando CR
- Kitty graphics command malicioso: possível execução de comandos via sequências gráficas manipuladas
- Crash via tmux control mode: causava DoS do terminal
- Hyperlinks OSC 8 inseguros: links podiam redirecionar pra targets perigosos no macOS
- Drag-and-drop sem proteção: no macOS, arrastar arquivos podia executar paste sem confirmação
Se você usa terminal pra trabalhar com dados sensíveis, produção, credenciais, essas correções importam. Muita gente ignora segurança de terminal até o dia que uma sequência ANSI maliciosa num log faz estrago.
macOS 27 (Golden Gate) e melhorias de interface
O Ghostty 1.4 já suporta o macOS 27, o Golden Gate que a Apple anunciou recentemente, mantendo compatibilidade com macOS 13 até o 26. Essa cobertura de versões é impressionante pra um projeto open source.
No macOS, as novidades incluem:
- Command palette com busca melhorada: highlights nos matches e busca por descrição, não só nome do comando
- Notificação de exit: quando um processo termina, uma barra nativa aparece com cor indicando sucesso ou erro
- Diálogo de review: ao fechar uma janela com vários processos rodando, o Ghostty pergunta quais você quer matar
- AppleScript expandido: novas propriedades
pid,ttyename overridepra automação - IME melhorado: composição de caracteres coreanos e japoneses funciona melhor
GTK: drag-and-drop de splits e global keybinds
No Linux (GTK), a versão 1.4 trouxe funcionalidades que antes eram exclusivas do macOS:
- Splits por drag-and-drop: arraste splits entre tabs e janelas, preservando processos rodando
+new-tabvia CLI: abra novas tabs em instâncias existentes via linha de comando+toggle-quick-terminal: integração com window managers pra terminal dropdown- Background blur: usando o protocolo
ext-background-effect-v1do Wayland - Global keybinds: via protocolo
vicinae-hotkey-v1do Wayland
A paridade entre macOS e Linux está ficando cada vez mais próxima. Essa era uma crítica forte ao Ghostty nas versões anteriores, e claramente a equipe ouviu.
Modelo financeiro: sem fins lucrativos e transparente
Aqui é onde o Ghostty se diferencia de praticamente todo projeto open source moderno. Em vez de pegar dinheiro de VC e eventualmente precisar monetizar (olha o que aconteceu com o Warp), o Mitchell optou pelo modelo sem fins lucrativos via Hack Club, uma organização 501(c)(3).
Os números do ciclo 1.4:
| Item | Valor | |
|---|---|---|
| —— | ——- | |
| Pago a contribuidores | US$ 41.820 | |
| Custos de infraestrutura | ~US$ 1.260 | |
| Novos contratos de 12 meses | 2 contribuidores |
O projeto aceita doações tax-deductible nos EUA. Toda a contabilidade é gerenciada pelo Hack Club com transparência total. O Mitchell continua como decision-maker final, mas está construindo governança para o futuro.
Eu já vi projetos open source brilhantes morrerem porque o criador cansou e não tinha como pagar as contas. O Ghostty está tentando resolver esse problema desde o começo, e os números mostram que está funcionando.
Emulação de terminal: a parte que ninguém vê mas todo mundo sente
Além das features visíveis, o Ghostty 1.4 melhorou dezenas de detalhes de emulação de terminal que afetam compatibilidade:
- Soft terminal reset (DECSTR): reset parcial sem fechar a sessão
- Extended cursor position reports (DECXCPR): programas podem saber a posição exata do cursor
- Visibility reports (mode 2033): o terminal informa programas quando está visível ou em background
- Screen checksum reports: pra testes automatizados de emulação
- Backarrow key mode (DECBKM): compatibilidade com programas legados
- Dezenas de fixes de compatibilidade xterm: movimento de cursor em margins, tab stops, etc.
Essas coisas não aparecem no changelog chamativo, mas são o que faz um terminal “simplesmente funcionar” com qualquer programa, de vim a htop passando por aplicações TUI obscuras dos anos 90.
Zig 0.17 e o futuro do libghostty
O Ghostty agora requer Zig 0.17 pra compilar (antes era 0.16). Pra quem não acompanha, o Zig é a linguagem que promete ser o “C melhorado” sem garbage collector, com gerenciamento manual de memória e segurança em tempo de compilação.
O roadmap do projeto está focado no libghostty, uma biblioteca que permite embarcar o motor do Ghostty em qualquer aplicação. O plano é lançar o libghostty 1.0 antes do Ghostty 1.5, que está previsto para março de 2027.
A implicação disso é que qualquer IDE, editor ou aplicação pode usar o renderizador do Ghostty internamente. Imagine o VS Code ou o Neovim usando o mesmo motor de terminal que processa texto 6x mais rápido e suporta gráficos Kitty nativamente.
O suporte a Windows via GUI foi oficialmente desprioritizado, mas o libghostty já suporta Windows como plataforma. Então, teoricamente, alguém pode construir um frontend Windows usando o libghostty.
4 novos idiomas e comunidade crescente
O Ghostty adicionou suporte a basco, bielorrusso, dinamarquês e sérvio (nos dois scripts). Pode parecer detalhe, mas indica uma comunidade global engajada o suficiente pra contribuir traduções.
Com 172 contribuidores nessa release, o projeto claramente deixou de ser “o terminal do Mitchell” e virou um esforço comunitário real. O modelo de pagamento a contribuidores ajuda: quando você pode ganhar US$ 41 mil divididos entre a comunidade por ciclo de release, a motivação pra contribuir é outra.
Vale trocar pro Ghostty?
Se você está no iTerm2, a resposta é quase certamente sim. O iTerm2 é 3x a 4x mais lento em throughput, usa 3x mais RAM idle e tem latência de input 6x maior. O Ghostty faz tudo que o iTerm2 faz e mais, com melhor performance.
Se você está no Alacritty, a decisão é mais nuançada. O Alacritty ainda usa menos RAM (22 MB vs 28 MB idle), mas não tem nem splits nativos, nem gráficos, nem metade das features do Ghostty. O Alacritty é pra quem quer o terminal mais minimalista possível. O Ghostty é pra quem quer features sem sacrificar performance.
Se você está no Kitty, o Ghostty agora compete feature-a-feature no protocolo gráfico e é ligeiramente mais rápido em throughput. A migração faz sentido se você quer UI nativa no macOS (o Kitty usa uma interface custom) ou se prefere o modelo de desenvolvimento do Ghostty.
Instalar é simples. No macOS:
brew install ghostty
No Linux (Arch):
pacman -S ghostty
Pra outras distros, o site oficial tem instruções detalhadas.
O Ghostty 1.4 não é só mais uma release de terminal. É a prova de que dá pra fazer software open source de alta qualidade, pagar os contribuidores, não cobrar dos usuários e mesmo assim entregar um produto que compete com qualquer alternativa comercial. Mitchell Hashimoto já fez isso uma vez com o HashiCorp. Parece que está fazendo de novo.













