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Google Matou o uBlock Origin no Chrome: O Que Fazer Agora

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Se você abriu o Chrome ontem e sentiu que algo estava diferente, não foi impressão. O Google finalmente puxou o gatilho: removeu o uBlock Origin e todas as extensões Manifest V2 da Chrome Web Store. Acabou. Aquela extensão que te protegia de anúncios invasivos, trackers e pop-ups irritantes simplesmente sumiu da loja.

E o pior? Isso não foi um acidente. Foi planejado durante quatro anos.

A morte anunciada do Manifest V2

Pra entender o que aconteceu, precisa voltar um pouco no tempo. Em 2022, o Google parou de aceitar novas extensões no formato Manifest V2 (MV2) na Chrome Web Store. Era o primeiro sinal de que o formato estava com os dias contados. Entre 2024 e 2025, o Google começou a desabilitar extensões MV2 gradualmente nos canais de desenvolvimento e beta do Chrome.

Em julho de 2025, com o Chrome 138, o suporte ao MV2 foi oficialmente desligado. Extensões já instaladas ainda funcionavam, mas era uma questão de tempo. E esse tempo acabou em 31 de agosto de 2026: todas as listagens MV2 foram removidas da Chrome Web Store. Incluindo o uBlock Origin.

O projeto uBlock Origin lançou a versão 1.74 como sua release final na loja do Chrome, avisando os usuários sobre o que viria. Raymond Hill, o criador do uBlock Origin, não se surpreendeu. Ele já vinha alertando a comunidade há meses.

Por que o Google fez isso?

A resposta oficial do Google: segurança, privacidade e performance. O Manifest V3 (MV3) supostamente oferece limites mais rígidos sobre o que extensões podem acessar e modificar no navegador. Em teoria, isso protege o usuário.

Na prática? O MV3 substituiu a API webRequest (que permitia interceptar e modificar requisições HTTP em tempo real) pela declarativeNetRequest (DNR), que é um sistema de regras estáticas onde o próprio navegador avalia os filtros, sem nenhum processo de extensão rodando em background.

Parece mais eficiente, certo? Só que tem um detalhe: a DNR é drasticamente mais limitada. Extensões de bloqueio de anúncios perderam a capacidade de fazer filtragem dinâmica, manter logs de requisições de rede e atualizar filtros em tempo real. É como trocar um bisturi por uma faca de manteiga e dizer que é “mais seguro”.

A EFF (Electronic Frontier Foundation) e diversos defensores de privacidade foram diretos: o MV3 enfraquece bloqueadores de trackers enquanto não afeta em nada o negócio de anúncios do Google. Coincidência?

O que muda na prática pra você

Se você usa Chrome e tinha o uBlock Origin instalado, aqui vai o cenário atual:

SituaçãoO que acontece
Chrome 138 ou anteriorA extensão ainda funciona, mas não recebe mais atualizações
Chrome 139 em dianteMV2 não roda. Ponto final.
ReinstalaçãoImpossível. A listagem foi removida da loja
Links diretosNão funcionam mais. O Google removeu tudo

Isso significa que mesmo quem tinha o uBlock Origin instalado vai perder a proteção eventualmente, seja por falta de atualizações nos filtros ou por atualizar o Chrome.

E não é só o uBlock Origin. Toda extensão que dependia do MV2 foi afetada: ferramentas de privacidade, gerenciadores de scripts, bloqueadores de rastreamento. O ecossistema inteiro levou um golpe.

uBlock Origin Lite: funciona ou é marketing?

O Raymond Hill criou o uBlock Origin Lite, uma versão compatível com MV3. Ele existe, está na Chrome Web Store, e funciona. Mas vamos ser honestos: não é a mesma coisa.

As principais limitações do uBlock Origin Lite:

  • Sem filtragem dinâmica: a versão Lite não pode avaliar e bloquear requisições em tempo real como o original fazia
  • Sem logger de rede: esquece aquela ferramenta de debug que mostrava exatamente o que estava sendo bloqueado
  • Filtros cosméticos reduzidos: nos modos Basic e Optimal, a cobertura de filtros é menor
  • Sem listas customizadas avançadas: adicionar filtros personalizados é bem mais limitado
  • Streaming ads e anti-adblock: aqui o Lite sofre. Sites que detectam bloqueadores e exibem ads em stream conseguem passar pelo Lite com mais facilidade

Um estudo revisado por pares publicado em janeiro de 2026 testou extensões MV2 vs MV3 em 924 sites e não encontrou diferença estatisticamente significativa na eficácia de bloqueio em cenários típicos. Nos testes com YouTube, ambas as versões bloquearam pre-rolls, mid-rolls, masthead ads, ads no feed e em Shorts.

Então pra navegação casual, o Lite dá conta. Mas pra quem usava o uBlock Origin como ferramenta de trabalho (analistas de segurança, desenvolvedores, pesquisadores de privacidade), a perda é real.

As alternativas que realmente funcionam

Vamos ao que interessa. Se você quer continuar com bloqueio de anúncios de verdade, tem opções. Algumas exigem mudar de navegador.

Firefox: o último bastião

O Firefox é o único navegador mainstream que ainda suporta o uBlock Origin completo com MV2. O Firefox 155 roda a extensão sem nenhuma restrição, com todas as features que você conhece: filtragem dinâmica, logger de rede, listas customizadas, o pacote completo.

O market share do Firefox gira em torno de 6,4% no desktop em 2026. É pouco comparado aos 66,7% do Chrome. Mas pra quem prioriza privacidade e controle, é a escolha óbvia. O Firefox não é baseado no Chromium, então ele não precisa seguir as regras do Google.

Brave: o meio-termo

O Brave fez algo esperto: hospedou o uBlock Origin, AdGuard, uMatrix e NoScript nos seus próprios servidores. Você pode habilitar essas extensões MV2 em Configurações > Extensões > Extensões Manifest V2. Além disso, o Brave tem seu próprio sistema de bloqueio nativo (Brave Shields) que já é bastante eficiente.

O Brave cresce cerca de 13% ano a ano e tem se posicionado como a alternativa “Chrome-like” para quem quer privacidade sem abrir mão da compatibilidade com sites que funcionam melhor no Chromium.

DNS-level blocking: Pi-hole e AdGuard Home

Se você quer ir além do navegador, bloqueio por DNS é uma opção poderosa. O Pi-hole ou o AdGuard Home filtram requisições no nível da rede, bloqueando domínios de anúncios e trackers antes mesmo de chegarem ao seu navegador.

# Instalar Pi-hole em qualquer Linux
curl -sSL https://install.pi-hole.net | bash

# Ou via Docker
docker run -d \
  --name pihole \
  -p 53:53/tcp -p 53:53/udp \
  -p 80:80 \
  -e TZ="America/Sao_Paulo" \
  pihole/pihole:latest

A vantagem? Funciona em todos os dispositivos da sua rede, incluindo smart TVs, celulares e até aplicativos que não aceitam extensões. A desvantagem? Não faz filtragem cosmética (os espaços dos anúncios continuam lá, só ficam vazios).

Extensões MV3 que sobreviveram

Além do uBlock Origin Lite, algumas extensões se adaptaram ao MV3:

  • AdGuard Browser Extension: reescrita para MV3, manteve boa parte da funcionalidade
  • Privacy Badger: compatível com MV3 desde 2024 após rewrite completo
  • Ghostery: migrou para MV3 com foco em anti-tracking

Nenhuma delas é tão poderosa quanto o uBlock Origin original com MV2. Mas pro usuário médio, a combinação de uBlock Origin Lite + Privacy Badger cobre a maioria dos cenários.

Por que isso importa mais do que você pensa

Eu já vi muita gente tratar essa notícia como “ah, é só instalar outro bloqueador”. Mas o problema é maior que isso.

O Google controla 66% do mercado de navegadores. Quando o Google decide que uma API não vai mais existir, 2 em cada 3 usuários da internet são afetados diretamente. E por que o Google removeria justamente a API que permite bloquear anúncios eficientemente?

O Google faturou mais de US$ 265 bilhões com publicidade em 2025. O negócio inteiro da empresa depende de você ver anúncios. Quando uma extensão com mais de 40 milhões de usuários bloqueia esses anúncios, isso é um problema de receita.

Claro, o Google não vai admitir isso. O discurso oficial fala em segurança e performance. Mas os fatos falam por si: a API que foi removida (webRequest) é exatamente a que permitia bloqueio eficiente de anúncios. A API que a substituiu (declarativeNetRequest) é mais limitada justamente na parte que afeta bloqueadores. E o negócio de anúncios do Google não foi afetado em nada pela mudança.

“Google was cool when they believed, don’t be evil.”

Comentário no Hacker News que resume o sentimento da comunidade

A anatomia técnica do problema

Pra quem é dev, vale entender exatamente o que mudou por baixo do capô. No MV2, uma extensão de bloqueio funcionava assim:

// MV2: interceptação em tempo real (webRequest API)
chrome.webRequest.onBeforeRequest.addListener(
  function(details) {
    // Avalia regras dinâmicas contra a URL
    if (shouldBlock(details.url, details.type)) {
      return { cancel: true };
    }
  },
  { urls: ["<all_urls>"] },
  ["blocking"]
);

A extensão via cada requisição HTTP, podia analisar headers, avaliar regras complexas e decidir em tempo real se bloqueava ou não. Tudo isso rodando num processo persistente em background.

No MV3, o modelo é completamente diferente:

// MV3: regras declarativas estáticas (declarativeNetRequest API)
chrome.declarativeNetRequest.updateDynamicRules({
  addRules: [{
    id: 1,
    priority: 1,
    action: { type: "block" },
    condition: {
      urlFilter: "ads.example.com",
      resourceTypes: ["script", "image"]
    }
  }]
});

A extensão declara as regras e o navegador as aplica internamente no seu engine C++. Sem processo em background, sem avaliação dinâmica, sem acesso aos detalhes da requisição. O limite? 330.000 regras estáticas por extensão. O uBlock Origin original podia carregar milhões de regras dinâmicas e avaliar cada uma em contexto.

É como a diferença entre ter um segurança que avalia cada pessoa na porta versus uma lista de nomes proibidos colada na parede. A lista pega os casos óbvios, mas qualquer variação passa direto.

O que os desenvolvedores de extensões dizem

Raymond Hill, criador do uBlock Origin, foi pragmático. Ele sabia que esse dia chegaria e preparou o uBlock Origin Lite como alternativa dentro do possível. Mas não escondeu que o Lite é inferior: “fewer capabilities than the full uBlock Origin because of limitations imposed by the newer extension API.”

Desenvolvedores de outras extensões de privacidade relatam frustrações similares. A migração para MV3 não é só uma questão de reescrever código. É aceitar que certas funcionalidades simplesmente não são possíveis no novo framework. A declarativeNetRequest tem um limite de 330.000 regras estáticas por extensão. Parece muito? O uBlock Origin original podia carregar milhões de regras dinâmicas.

Como migrar em 5 minutos

Se você decidiu mudar de navegador, aqui vai um guia rápido:

Migrar do Chrome para o Firefox

# 1. Baixe o Firefox (Linux)
sudo apt install firefox
# ou
sudo snap install firefox

# 2. Na primeira execução, o Firefox oferece importar:
# - Bookmarks
# - Senhas salvas
# - Histórico
# - Extensões compatíveis

# 3. Instale o uBlock Origin
# Firefox > Add-ons > Pesquise "uBlock Origin" > Instalar

No Windows e macOS, basta baixar do site oficial. O Firefox importa seus dados do Chrome automaticamente no primeiro uso.

Migrar do Chrome para o Brave

O Brave é baseado em Chromium, então a migração é ainda mais suave. Suas extensões do Chrome (as que ainda funcionam no MV3) são compatíveis. Importação de bookmarks, senhas e histórico funciona nativamente.

Exportar suas configurações do uBlock Origin

Se você ainda tem acesso ao uBlock Origin no Chrome (versão antiga), exporte suas configurações antes de perder acesso:

  1. Abra o dashboard do uBlock Origin
  2. Vá em “Settings” > “Backup to file”
  3. Salve o arquivo JSON
  4. No Firefox, instale o uBlock Origin e use “Restore from file”

O futuro dos bloqueadores de anúncio

O cenário não é animador pro Chrome. Com o MV3 consolidado, a tendência é que bloqueadores fiquem cada vez menos eficientes nesse navegador. Sites com anti-adblock vão ter vida fácil contra extensões MV3, e o Google não tem incentivo nenhum pra melhorar essa situação.

Por outro lado, navegadores como Firefox e Brave estão se beneficiando. Mais de 40 milhões de usuários do uBlock Origin precisam de um novo lar. Nem todos vão migrar, claro. A maioria vai aceitar o uBlock Origin Lite ou simplesmente parar de bloquear anúncios (que é exatamente o que o Google quer).

Mas pra quem se importa com privacidade, o recado é claro: se o navegador que você usa é controlado pela maior empresa de publicidade do mundo, seus interesses não estão alinhados. Nunca estiveram.

A pergunta que fica: quanto da sua experiência online você está disposto a ceder pra continuar usando o Chrome?


Fonte de inspiração: Google Has Removed MV2 Extensions from the Chrome Web Store, Including UBO (Hacker News)

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