O Spotify consome 1.4 GB de RAM no seu computador depois de duas horas de uso. Lê de novo: um player de música ocupando mais memória que o Photoshop. E o pior? A Spotify sabe disso, os usuários reclamam há anos nos fóruns, e nada muda.
Carmine Paolino resolveu o problema do jeito que todo dev frustrado gostaria de resolver: escreveu um do zero. Em Rust. O resultado é o Fastpotify, um cliente nativo que abre em menos de 1 segundo, usa entre 100 e 250 MB de RAM, e até roda skins do Winamp. Sim, skins do Winamp em 2026.
O projeto explodiu no Hacker News neste fim de semana com quase 500 upvotes. Eu fui testar, e preciso admitir: é o tipo de software que te lembra por que você começou a programar.
O problema que ninguém na Spotify quer resolver
O app desktop do Spotify não é tecnicamente um aplicativo Electron, mas quase. Ele usa o Chromium Embedded Framework (CEF) para renderizar sua interface, o que na prática significa que você está rodando um navegador inteiro só para ouvir música. Cada aba, cada animação, cada micro-interação passa por um motor de renderização web completo.
O resultado é previsível. Logo na inicialização, o Spotify já puxa entre 400 e 600 MB de RAM. Deixa rodando por algumas horas e esse número escala para 1.2 GB ou mais. Nos fóruns da comunidade Spotify, existem threads de 2019 que continuam recebendo respostas em 2026, todas com a mesma queixa: “por que um player de música precisa de tanta memória?”
A resposta honesta é: não precisa. Mas a Spotify fez a escolha de engenharia que metade da indústria fez na última década: empacotar tecnologia web dentro de um wrapper nativo e chamar isso de “app desktop”. É mais barato de desenvolver, mais fácil de manter, e o usuário que aguente o garbage collector pausando a cada 47 segundos quando o heap do V8 fragmenta acima de 1.2 GB.
Não é só a memória. O startup do Spotify no Windows leva entre 3 e 8 segundos dependendo da máquina. Num notebook com 8 GB de RAM (que ainda é a realidade de muito dev brasileiro), ter Spotify, VS Code, Docker e um navegador abertos ao mesmo tempo vira um exercício de gerenciamento de swap.
Fastpotify: o que é e como funciona
O Fastpotify é um cliente Spotify alternativo escrito em Rust, usando egui para interface e librespot para comunicação com os servidores do Spotify. É open source (licença MIT), roda em Linux, macOS e Windows, e requer uma conta Spotify Premium.
O login funciona via OAuth (Authorization Code com PKCE), ou seja, suas credenciais nunca passam pelo Fastpotify. Você faz login direto nos servidores da Spotify, e o app recebe apenas o token de acesso. As credenciais ficam armazenadas localmente nos diretórios padrão do sistema operacional.
A stack técnica
| Componente | Tecnologia | |
|---|---|---|
| — | — | |
| Linguagem | Rust (toolchain fixada via rust-toolchain.toml) | |
| Interface | egui (GPU-accelerated, immediate mode) | |
| Áudio | librespot (biblioteca open source para protocolo Spotify) | |
| Fonte | Inter | |
| Ícones | Lucide | |
| Licença | MIT |
O egui merece destaque aqui. É uma biblioteca de interface gráfica em modo imediato (immediate mode GUI) para Rust. Diferente de frameworks como Qt ou GTK que mantêm uma árvore de widgets em memória, o egui redesenha a interface inteira a cada frame. Isso parece ineficiente, mas na prática é absurdamente rápido porque o Rust compila para código nativo e o egui usa aceleração de GPU.
O librespot, por sua vez, é a peça que permite acessar os servidores do Spotify sem depender do SDK oficial. É uma reimplementação em Rust do protocolo de comunicação do Spotify, mantida como projeto independente. Existe desde 2016 e é usado em diversos projetos, incluindo o spotifyd (um daemon Spotify para headless setups).
Os números que importam
Eu sei que “é rápido” não convence ninguém. Então vamos comparar:
| Métrica | Spotify Desktop | Fastpotify | |
|---|---|---|---|
| — | — | — | |
| RAM na inicialização | 400 a 600 MB | 100 a 150 MB | |
| RAM após 2h de uso | 1.2 a 1.4 GB | 150 a 250 MB | |
| Tempo de startup | 3 a 8 segundos | Menos de 1 segundo | |
| Tamanho do binário | ~300 MB (com CEF) | ~15 MB | |
| Processos criados | 5 a 12 | 1 |
A diferença de processos é talvez o detalhe mais revelador. O Spotify desktop cria uma família inteira de processos: um para o app principal, um para cada janela, um para GPU, outro para networking, outro para áudio. O Fastpotify é um único binário, um único processo. Porque, no fim das contas, é só um player de música.
Features que você não esperava
O Fastpotify não é um cliente minimalista que só dá play/pause. Ele tem um conjunto de funcionalidades que rivaliza com o app oficial em muitos aspectos.
Biblioteca completa
Tudo que você espera de um cliente Spotify está lá: playlists, Liked Songs, álbuns salvos, artistas seguidos, podcasts, episódios salvos. A busca funciona com categorias (músicas, artistas, álbuns, playlists, podcasts). Você pode criar, editar e reordenar playlists. A sidebar é customizável com pin e filtros.
Spotify Connect
Esse é o recurso que muita gente pensou que não seria possível em um cliente alternativo. O Fastpotify funciona como dispositivo Spotify Connect, o que significa que você pode controlar alto-falantes, TVs e celulares a partir dele. Ele também descobre dispositivos na rede via mDNS, o que inclui outros players como o spotifyd.
Playback sério
Áudio até 320 kbps com gapless playback (sem silêncio entre faixas), normalização de volume opcional e cache de áudio em disco. Quando você fecha e reabre o app, ele retoma de onde parou.
Mini player do Winamp
E aqui vem a parte que fez o Hacker News pirar. O Fastpotify tem um mini player compatível com skins clássicas do Winamp (arquivos .wsz). Com equalizador, analisador de espectro, e tudo mais. Se você cresceu usando Winamp nos anos 2000, esse recurso sozinho já vale o download.
Visualizador MilkDrop
Para quem não lembra: MilkDrop era o visualizador psicodélico do Winamp que gerava animações baseadas no áudio. O Fastpotify implementou isso usando projectM, que é uma reimplementação open source do MilkDrop. Abre numa janela separada e transforma seu monitor num show de luzes.
Integração com o sistema
No Linux, integra com MPRIS (Media Player Remote Interfacing Specification), então funciona com controles de mídia do GNOME, KDE, e qualquer outro desktop environment. No macOS e Windows, tem controle via linha de comando:
fastpotify play-pause # Toggle playback
fastpotify now-playing # Mostra a faixa atual
fastpotify devices # Lista dispositivos Connect
fastpotify transfer <id> # Transfere playback para outro device
Instalação: mais fácil do que parece
Arch Linux (btw)
# Via AUR
yay -S fastpotify-bin # binário pré-compilado
yay -S fastpotify # compila do source
yay -S fastpotify-git # bleeding edge
macOS
brew install --cask crmne/tap/fastpotify
Linux (Flatpak)
O Fastpotify já está no Flathub, então:
flatpak install flathub rocks.fastpotify.Fastpotify
Build manual (qualquer plataforma)
# Requer Rust 1.95+, CMake, compilador C++, libclang
git clone https://github.com/crmne/fastpotify.git
cd fastpotify
cargo install --path .
No Linux você vai precisar de algumas dependências de sistema para áudio e janelas (ALSA, PulseAudio ou PipeWire, mais as libs de X11 ou Wayland). No macOS e Windows, geralmente funciona direto.
O ecossistema anti-bloat em 2026
O Fastpotify não é um caso isolado. Existe um movimento crescente de devs que estão reconstruindo aplicações cotidianas com foco em performance e consumo de recursos.
O Tauri, por exemplo, é a alternativa direta ao Electron para quem quer fazer apps desktop cross-platform. A diferença? Apps Tauri pesam 2 a 10 MB (contra 80 a 200 MB do Electron), usam 50 MB de RAM (contra 120 MB+), e iniciam 40% mais rápido. A mágica está em usar o WebView nativo do sistema operacional em vez de empacotar o Chromium inteiro.
O Zed, o editor de código feito pelos criadores do Atom, é outro exemplo. Escrito em Rust com GPU rendering, abre instantaneamente e consome uma fração da memória do VS Code. O Helix, também em Rust, é um editor modal que mal aparece no monitor de sistema.
O padrão é claro: Rust está se tornando a linguagem padrão para reconstruir software que a era do Electron transformou em monstros de memória. E o melhor é que esses projetos não sacrificam funcionalidade por performance. O Fastpotify tem skins do Winamp, visualizador MilkDrop e Spotify Connect. Não é um tradeoff, é simplesmente software bem feito.
Por que a Spotify não faz isso?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares (ou de 1.4 GB de RAM). Se um desenvolvedor solo consegue fazer um cliente que usa 5x menos memória, por que uma empresa com milhares de engenheiros e bilhões em receita não consegue?
A resposta não é técnica, é organizacional. O app desktop do Spotify é uma extensão do app web. A mesma codebase JavaScript, os mesmos componentes React, a mesma lógica de negócio. Reescrever em nativo significaria manter duas bases de código separadas (web e desktop), contratar engenheiros Rust/C++ que são mais caros e mais raros, e convencer a liderança de que vale o investimento quando o app atual “funciona”.
Na perspectiva de produto da Spotify, o app desktop é secondary. O mobile é o que importa, e lá eles já usam código nativo. O desktop é tratado como um wrapper web glorificado porque os números mostram que a maioria dos usuários não cancela a assinatura por causa de uso de RAM. Não é bonito, mas é a realidade de produto em big tech.
Ética e limites do projeto
O Fastpotify deixa claro no repositório: nada de remover anúncios, ripar streams ou manipular reprodução. Ele é um cliente alternativo que usa os mesmos protocolos, respeita os mesmos limites, e exige conta Premium. Não é pirataria, é liberdade de escolha sobre qual software usar para acessar um serviço que você já paga.
O librespot opera numa zona cinzenta legal, já que é uma reimplementação não oficial do protocolo. A Spotify nunca tomou ação contra o projeto (que existe desde 2016), provavelmente porque combater reimplementações open source seria péssimo para a imagem da empresa. Mas isso não garante que a situação será assim para sempre.
Se você pretende usar o Fastpotify como seu player principal, vale ficar de olho no repositório para acompanhar qualquer mudança nessa dinâmica.
Testei por um fim de semana: vale a pena?
Rodei o Fastpotify no meu setup Linux (Pop!_OS, PipeWire, Wayland) por dois dias. Impressões rápidas:
O que funciona muito bem:
- Startup absurdamente rápido. Tipo, piscar e já abriu.
- A interface é limpa e responsiva. Não tem as animações chiques do app oficial, mas também não trava.
- Spotify Connect funcionou perfeitamente com meu Google Nest.
- Cache de áudio funciona: músicas que já tocaram carregam instantaneamente.
- RAM estável em ~180 MB mesmo depois de horas rodando.
O que ainda precisa de trabalho:
- A busca é funcional mas não tem recomendações personalizadas (Made For You, Daily Mix, etc.).
- Letras de música não aparecem (o Spotify bloqueia essa API para clientes não oficiais).
- Algumas playlists editoriais do Spotify não carregam corretamente.
- O mini player do Winamp é divertido, mas a implementação ainda tem bugs visuais em monitores HiDPI.
Veredito: para quem usa Spotify majoritariamente para ouvir músicas e podcasts da própria biblioteca, o Fastpotify é superior ao app oficial em todos os aspectos que importam. Se você depende muito de recomendações algorítmicas e playlists curadas, vai sentir falta.
Como contribuir
O projeto está ativo no GitHub com 1.200 stars, 51 forks e 327 commits. Tem 24 issues abertas e 13 PRs pendentes. O código é Rust puro, bem documentado, e o CONTRIBUTING.md é claro sobre o que é e o que não é aceito.
Se você está aprendendo Rust e quer um projeto real para contribuir, o Fastpotify é uma ótima opção. As issues taggeadas como “good first issue” incluem melhorias de acessibilidade e suporte a mais formatos de skin.
# Clone e rode os testes
git clone https://github.com/crmne/fastpotify.git
cd fastpotify
cargo test
O software que você merece
O Fastpotify não vai substituir o Spotify oficial para todo mundo. Mas ele prova algo importante: existe uma alternativa. Você não precisa aceitar que um player de música consuma 1.4 GB da sua RAM. Você não precisa esperar 8 segundos para ouvir uma música. Você não precisa rodar um navegador inteiro escondido dentro de um app.
Se um único dev, com Rust e bom senso, conseguiu fazer um cliente que abre em 1 segundo e usa 5x menos memória, imagine o que times inteiros poderiam fazer se parassem de tratar desktop como cidadão de segunda classe.
O código está no GitHub. É MIT. Vai lá testar.
Fonte de inspiração: Fastpotify, trending no Hacker News com ~500 upvotes.













